Oliver Sacks e a música que salva

O médico de Tempo de Despertar lança livro sobre poder miraculoso dos sons. A música é o mais poderoso antídoto contra a demência… mas pode também deixar alguém maluco. Pode salvar uma pessoa com mal de Parkinson, resgatar uma outra com Alzheimer e até transfomar alguém que nem se importava com ela num exímio virtuose. É isso o que diz o neurologista inglês Oliver Sacks, autor de vários livros sobre curiosas habilidades desenvolvidas por pessoas doentes. Ele lança no mundo todo, seu livro Alucinações Musicais (Companhia das Letras, 368 págs., R$ 49). Sacks, cujo trabalho foi tema do filme Tempo de Despertar (Awakenings), concedeu por telefone uma entrevista a’O Estado de São Paulo, que aqui reproduzimos.

O senhor diz em seu livro que seu interesse por alucinações musicais começou nos anos 1970, quando sua mãe, aos 75 anos, teve uma experiência extraordinária, ouvindo canções patrióticas da guerra dos Boêres em seu cérebro. Naquela ocasião o senhor pensou que ela estava a um passo da insanidade?

Não diria que ela estava a um passo da insanidade. Inicialmente, imaginei que pudesse ser um derrame ou efeito de algum remédio, mas concluí que se tratava, antes de tudo, de uma experiência poética, algo parecido com o que T.S. Eliot descreve num de seus poemas sobre o momento exato em que seu cérebro começa a se reciclar. A percepção musical e as emoções que a música pode despertar não dependem só da memória. Creio que ela mesma não ficou perturbada quando começou a ouvir essas velhas canções de guerra involuntariamente. Naquela época estava escrevendo O Homem Que Confundiu Sua Mulher com Um Chapéu e tratava também de uma velha senhora que julgava estar ficando demente por ter essas alucinações musicais. Ela estava ficando surda e como a perda auditiva implicava pouca estimulação desse sentido e de seu sistema perceptual, é natural que o cérebro buscasse uma compensação, justamente as suas alucinações musicais. No caso de minha mãe, porém, ela não sofria perda auditiva ou cognitiva. As canções sumiram de sua mente após duas semanas.

A perda da capacidade auditiva por músicos profissionais parece crescer assustadoramente em todo o mundo, já castigado pela poluição sonora urbana e o uso abusivo de iPods e celulares. Esse fenômeno estaria associado a uma conseqüente perda da capacidade criativa?

De fato, há um problema grave de amplificação que castiga particularmente os músicos profissionais – em especial os de rock e jazz -, mas ele diz respeito a todos os que moram nas grandes cidades. É perigoso ficar exposto a alto volume de som e à poluição sonora como ficamos, por exemplo, em Nova York. Uma pesquisa mostrou que 90% dos habitantes da cidade têm iPods e que a tendência entre os jovens é ouvir música em alto volume. Aliado a isso temos uma rede sonora que nos cerca em todo o meio urbano, dos bares aos shoppings. Há música em todo o lugar. Mas, voltando ao problema da criação, não vejo como a perda da audição possa afetar a imaginação. Há exemplos históricos, como Helen Keller e Beethoven, que provam o contrário.

Novalis, como o senhor mesmo cita em seu livro, costumava dizer que toda doença é um problema musical e que toda cura é uma solução musical. O senhor propõe que a música possa ser uma ponte para pacientes como o cirurgião Tony Cicoria, atingido por um raio quando telefonava e subitamente transformado em pianista após o quase fatal acidente, quando começou a ouvir Chopin de forma obsessiva. Há compositores que ajudam mais que outros na terapia musical?

Cicoria ficou obcecado por Chopin por causa de uma gravação do pianista Vladimir Ashkenazi, mas não diria que exista um compositor melhor que outro para uso terapêutico. A música ajuda, não importa se é de Monteverdi ou de Verdi, embora alguns compositores possam resultar menos eficazes, como Wagner (ri). Pessoas que tinham um vago interesse musical passam, subitamente, a depender de música, não exatamente por causa de um compositor, mas por emoções liberadas por algum tipo de som. IPods podem ajudar muito pacientes com afasia ou mal de Alzheimer, especialmente músicas que lhe sejam familiares. Acontece com frequência que essas pessoas sejam tratadas como idiotas, o afásico por não conseguir se expressar e o paciente de Alzheimer por ser alguém que perdeu a identidade, passando a ser tratado como um simulacro de pessoa. Portadores de distúrbios neurológicos como a paciente parkinsoniana Rose, de Tempo de Despertar, ouvia incessantemente temas repetitivos em sua cabeça e isso era um realmente sofrimento. No entanto, a música pode ajudar outros pacientes com Parkinson, embora eles raramente tomem a iniciativa de buscá-la. O primeiro passo costuma sempre ser do terapeuta. O fluxo irregular do movimento dos parkinsonianos pode melhorar muito com a música, embora ela não precise ser familiar ou evocativa, como no caso das pessoas com Alzheimer.

O senhor parece discordar de colegas como Donna Cohen, que defende estar a perda da autopercepção automaticamente associada à perda do self em pacientes com Alzheimer. Por que esses pacientes têm uma ligação mais forte com memórias musicais da infância?

À medida que a doença avança, uma pessoa com Alzheimer pode perder sua capacidade lingüística, mas isso não significa perder a autopercepção, em especial a da própria diversidade. Somos uma espécie lingüística e a perda da capacidade de se expressar não se traduz automaticamente em perda do self. A pessoa pode sofrer uma regressão à infância, mas aspectos de sua personalidade sobreviverão. A linguagem musical prevalece sobre todas as outras e a memória para ela sobrevive a todas as outras formas de memória, e funciona quando tudo o mais parece ineficaz.

A emergência de um talento artístico em doentes com demência frontotemporal é analisada em seu livro. Há mesmo uma ligação direta entre criatividade artística e loucura?

Esse é um conceito romântico. A demência frontotemporal é um caso muito especial. O advento de talentos artísticos nesses pacientes é uma forma de compensação, uma maneira de conviver de forma mais harmoniosa, digamos, com a demência, uma forma de coexistência. Esse tipo de talento surge, de modo geral, em pessoas com lesão no lobo temporal esquerdo. São pacientes desinibidos que aprenderam, de alguma forma, a conviver com a demência.

Um dos capítulos mais interessantes de seu livro é o dedicado aos efeitos da música sobre os tiques dos portadores da síndrome de Tourette, especialmente como o jazz e o rock, que, pela liberdade de improvisação, podem ajudar essas pessoas. Por que esses dois gêneros musicais são mais atrativos?

Por causa do uso da percussão no jazz e no rock. Conheço vários músicos de jazz com essa síndrome e que tiram o melhor partido dessa diferença. Cito, no livro, o caso de David Alridge, baterista de jazz que contou sua história num livro em que descreve como a permissão para improvisar liberou seus movimentos e o fez explorar novas possibilidades sonoras. Pessoas com Tourette têm o problema oposto ao dos portadores de Parkinson. Eles precisam canalizar essa energia incontida.

Matéria Original:
O Estado de São Paulo – 26/09/2007

Por: Antonio Gonçalves Filho

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