Musicoterapia e Fibromialgia: acordes para aliviar a dor

Pesquisa investiga o uso da música erudita no tratamento de mulheres com fibromialgia.

Ao longo da história da medicina, a utilização da música como recurso terapêutico sempre esteve presente. Desde a feitiçaria passando pela medicina popular, pelo empirismo, medicina teúrgica, indo até Platão, que já reconhecia na música o poder de acalmar as perturbações da alma, a medicina tenta empregá-la como mais um instrumento no tratamento das doenças.

“A Música como Terapia Complementar no Cuidado de Mulheres com Fibromialgia”, tese de mestrado de Eliseth Ribeiro Leão, defendida na Escola de Enfermagem da USP, sob a orientação da professora Maria Júlia Paes da Silva, estuda as relações que existem entre o uso da música e o alívio da dor.

Foram analisadas quarenta mulheres que sofrem de dor crônica devido à fibromialgia, uma forma de reumatismo não articular caracterizada por dor músculo-esquelética generalizada e fadiga, com pontos dolorosos em múltiplas localizações, fraqueza muscular e sono não restaurador. Ocorre predominantemente entre mulheres na faixa etária acima dos 40 anos, sendo apenas 20% dos casos do sexo masculino. Através de 80 sessões de musicoterapia, aplicadas duas vezes em cada paciente, com intervalos de uma semana, as mulheres ouviam a música escolhida por volta de 20 minutos.

Segundo Borchgrevink, autor do livro O Cérebro por Trás do Potencial Terapêutico da Música, não ouvimos com o nosso ouvido, mas sim com o nosso cérebro. O ouvido simplesmente converte as ondas sonoras (vibrações) em impulsos nervosos: linguagem do cérebro. Eliseth queria estudar dois momentos e estado de ânimo diferentes, “pois tudo isso influencia na expressão da dor que o indivíduo sente”.

As mulheres podiam optar entre músicas solo, orquestrada ou de câmara. A pesquisadora conta que, do ponto de vista de análise musical, todas elas eram passíveis de produzir relaxamento, já que ele leva ao alívio da dor. “As músicas eram calmas com movimentos lentos”, observa.

Quanto à escolha do repertório, ficou limitada à música erudita pois a vocal poderia confundir, atribuindo os efeitos ao texto e não à música em si. O recorte musical recaiu entre os séculos 18 e 19, cobrindo os períodos barroco, clássico e romântico. Johann Sebastian Bach, representando o auge do barroco; Ludwig van Beethoven o classicismo; e os dois lados contrastantes do romantismo interpretados pelo dramatismo de Richard Wagner e o perfeccionismo artesanal de Johannes Brahms.

Depois do silêncio só a música

O estudo procurou identificar além dos efeitos da música erudita como terapia complementar no tratamento da dor crônica, qual o perfil de escolha musical das mulheres a partir de uma seleção preestabelecida. Também buscou verificar os efeitos da utilização da audição musical erudita relacionados à ocorrência de alterações fisiológicas indicativas de relaxamento, observando a freqüência cardíaca, pressão arterial, respiração, temperatura cutânea e alterações eletromiográficas dos músculos trapézio e frontal.

Como cita o escritor inglês Aldous Huxley, “depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música”. Embora exista uma infinidade de sons que nos cercam, alguns até mesmo inaudíveis para o ouvido humano, quando falamos de música só nos interessam as ondas sonoras que se propagam no ar e que se espalham simultaneamente em todas as direções, conhecidas como os sons musicais, que se caracterizam por sua beleza e organização e que se diferenciam dos demais sons da natureza e mesmo dos ruídos. Nietzsche acreditava que a vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio.

A fibromialgia é uma síndrome que atinge a população feminina em idade produtiva, levando, muitas vezes, ao afastamento permanente das atividades profissionais com conseqüentes implicações sobre a qualidade de vida e importantes repercussões socioeconômicas tanto para o indivíduo como para a sociedade.

A enfermagem tem sido considerada uma ciência humanitária por muitos estudiosos, pois ela se preocupa com o estudo da natureza e do rumo do desenvolvimento humano, o que lhe confere um caráter holístico. Por isso a utilização da música tem sido amplamente pesquisada principalmente em relação ao período pré-operatório. Neste caso, estudos apontam que a música pode reduzir a tensão e a ansiedade em situações estressantes como às que ocorrem nas salas de cirurgia. Diminui também a tensão e a dor, promovendo uma melhora na qualidade do sono além de constituir em um método de distração.

O estudo realizado por Eliseth mostra que 95% das mulheres gostaram muito da audição musical e sentiram alívio da dor, sendo que a que mais despertou interesse foi a de Richard Wagner, com 37,5% da preferência. Segundo a pesquisadora, a música libera as endorfinas porque afeta o hemisfério cerebral direito, estimulando a glândula pituitária, que por sua vez auxilia no alívio da dor, sem efeitos colaterais e sem ação deletéria na interação com outros agentes farmacológicos.

Como a dor é considerada uma experiência sensorial, brota na consciência do indivíduo e oblitera qualquer coisa em que se esteja pensando ou fazendo no momento. A dor se torna soberana e demanda uma atenção imediata. Por ter uma forte qualidade emocional, obriga o indivíduo a fazer algo para pará-la e quanto mais atenção é focalizada numa experiência dolorosa, mais dor o indivíduo sente. “É aí que a música entra como um componente que altera a percepção do estado doloroso”, enfatiza Eliseth.

A pesquisadora mostra que além das conclusões resultantes da análise estatística dos dados, foi possível perceber o quanto a música é um instrumento fortalecedor da relação enfermeira-paciente. “Notamos o quanto ela favorece a comunicação não-verbal. Muitas vezes nos surpreendíamos, ao término das sessões, com um abraço. Mais do que isso, pudemos ir vendo um certo brilho em seus olhares e sorrisos, absolutamente não mensuráveis. E então pensamos, é isso que a experiência nos traz”, enfatiza a pesquisadora.

“A música é como as pessoas são: um universo de possibilidades, sempre.”

Por: Izabel Leão

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