Fibromialgia-símile afeta 27% dos atletas

Na população em geral, a taxa é de 10%. O estudo, que foi realizado com 55 jogadores profissionais de handebol e maratonistas, também revelou diminuição da capacidade pulmonar máxima

O técnico em atletismo Luís Eduardo Tavares, 35, começou a sentir dores no tendão de Aquiles em 1992, quando era maratonista. Porém, apesar do sofrimento, não parou de correr. Depois de passar por vários médicos e sofrer cinco infiltrações, ele interrompeu o treinamento, entre 1998 e 2002.

Tavares só voltou ao esporte depois de receber o diagnóstico de fibromialgia-símile e se tratar. “Deveria ter parado logo, mas faltou orientação. Na época, quando me queixei ao técnico, ouvi: continua correndo que passa.”

A instrução que Tavares recebeu é comum. Mas ao contrário do que médicos e técnicos acreditam, esportistas podem desenvolver fibromialgia. A doença é diagnosticada por pelo menos três meses de dor muscular difusa. Também é preciso comprovar a existência de pontos doloridos (pontos-gatilho) em 11 das 18 partes do corpo descritas pelo Colégio Americano de Reumatologia.

A fibromialgia entre atletas foi descrita pela primeira vez na tese de doutorado do reumatologista Mauro Vaisberg, da disciplina de Imunologia da Unifesp, que analisou 55 jogadores profissionais de handebol e maratonistas. A descoberta chamou a atenção do presidente da comissão de dor da Sociedade Brasileira de Reumatologia, José Roberto de Provença. “Não imaginava que pessoas com condicionamento físico tão bom e alto nível de endorfina desenvolvessem a síndrome.”

No consultório

A idéia de estudar a doença nessa população nasceu da experiência clínica. “Atendia atletas com todas as características da fibromialgia”, diz Vaisberg. Ele submeteu os 55 esportistas a uma bateria de testes e, após o exame clínico, diagnosticou a doença em 15 deles (27,2%).

Como os atletas não souberam precisar há quanto tempo sentiam dor, o pesquisador optou por chamar a síndrome de fibromialgia-símile, pois a duração da queixa é um dos aspectos do diagnóstico. “A taxa de 27,2% é alta. Na população adulta costuma ficar em 10%”, diz.

No estudo, os praticantes de handebol também passaram por testes espirométricos. Os resultados mostraram que os esportistas com a síndrome tinham redução de até 20% de capacidade pulmonar máxima — conhecida pela sigla VO2max — do que os demais. O grupo com fibromialgia-símile teve, em média, VO2max de 38,89 mL/kg enquanto o sem a síndrome, 46,78. “Apesar de não estar em overtraining (fadiga causada pelo excesso de treinamento), eles tiveram um rendimento menor”, diz.

Segundo o orientador da tese, Luís Fernando Costa Rosa, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o trabalho abre novas discussões. “Outras pesquisas devem ser feitas para estabelecer qual é a perda de rendimento do atleta na modalidade que ele executa.”

Lesões musculares

Vaisberg também verificou a relação entre o número de pontos-gatilho e a ocorrência de lesões. Os atletas que relataram traumas tinham, em média, nove pontos doloridos. Já os que não se referiram ao problema sofriam com cinco. “Se o quadro estiver associado a um estado de maior contratura muscular, sua identificação pode ser um fator de proteção aos atletas.”

Ao avaliar a produção de citocinas (proteínas que regulam a função dos sistemas imunológico, nervoso e endócrino), Vaisberg encontrou diferenças entre os grupos com e sem a doença. A concentração da substância entre os esportistas com a síndrome estava até 4,73 vezes maior. “Em pessoas que não praticam exercícios para fins competitivos, a elevação das citocinas vem sendo associada à síndrome da fadiga crônica, semelhante ao overtraining. Isso também explica a queda do rendimento.”

Outro dado importante surge na comparação entre os subgrupos sem fibromialgia – 0 a 2, 3 a 6 e 7 a 10 pontos-gatilho. Atletas com 7 a 10 pontos doloridos tiveram concentração de citocinas 1,58 vezes maior do que o subgrupo com até 2. “A dosagem de citocinas pode ser um pré-detector do quadro de overtraining”, avalia o co-orientador da tese, Marco Túlio de Mello, do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício (Cepe) da Unifesp.

**Dados da pesquisa apontam que atualmente 10% da população em geral, apresentam a fibromialgia-símile .

Jornal da Unifesp- Universidade Federal de São Paulo – 01/12/2003

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