Depressão e qualidade de vida em pacientes com fibromialgia

Introdução

Fibromialgia é uma síndrome reumática que ocorre, predominantemente, em mulheres com idade entre 40 e 55 anos, caracterizada por dor musculoesquelética difusa e crônica e sítios dolorosos específicos à palpação (tender points).

Freqüentemente é associada à fadiga generalizada, distúrbios do sono, rigidez matinal, dispnéia, ansiedade e alterações de humor, que podem evoluir para um quadro de depressão1,2,3,4. Sendo assim, o paciente fibromiálgico apresenta dificuldade em trabalhar normalmente, interferindo negativamente no desempenho de outras atividades diárias e, conseqüentemente, na qualidade de vida5,6.

A depressão é um sintoma importante sendo apontada como um dos sintomas mais freqüentes em pacientes fibromiálgicos1. Vários estudos têm utilizado a Escala de Depressão de Beck7 para avaliar efeitos de tratamento8,9,10,11. Este questionário consiste de 21 grupos de quatro afirmações. Em cada grupo o sujeito deve escolher uma ou mais afirmações que melhor descrevem como ele se sentiu na última semana. A pontuação máxima é de 63 pontos e os altos escores indicam níveis severos de depressão. Segundo Meyer12 um escore acima de 16 indica possível depressão. Burckhardt13 usou diferentes instrumentos para avaliar a depressão em pacientes com fibromialgia e concluiu que a Escala de Depressão de Beck era o instrumento mais sensível para avaliá-la. Gowans8 usou vários instrumentos, entre eles a Escala de Beck, para avaliar a eficácia de um programa de exercícios e concluiu que o exercício físico pode melhorar o humor e a função física em indivíduos com fibromialgia.

A avaliação da qualidade de vida através de questionários tem sido reconhecida como uma importante área do conhecimento científico no campo da saúde. Isto porque os conceitos de saúde e qualidade de vida se interpõem – considerados como satisfação e bem-estar nos âmbitos físico, psíquico, socioeconômico e cultural – e a prioridade nos tratamento de quaisquer doenças ou síndromes tem sido cada vez mais, a busca pela saúde, em seu âmbito mais abrangente, e a melhora da qualidade de vida. Neste sentido o uso de questionários de qualidade de vida permite uma avaliação mais objetiva desta combinação de fatores subjetivos. Na prática clínica, eles podem identificar os âmbitos mais influenciados por determinada síndrome e avaliar a efetividade de uma intervenção e da análise de custo-utilidade do tratamento14.

Estes instrumentos podem ser específicos ou genéricos. Os instrumentos específicos são capazes de avaliar, de forma particular, determinados aspectos da qualidade de vida, próprios de uma população com uma determinada doença. Em 1991, Burckhardt et al.15 propuseram e testaram um instrumento para avaliação da qualidade de vida específico para Fibromialgia, o Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQ). Este questionário é específico para a fibromialgia e envolve questões relacionadas à capacidade funcional, situação profissional, distúrbios psicológicos e sintomas físicos. Em grande parte das questões o maior escore indica maior impacto da fibromialgia na qualidade de vida. Desde então tem sido utilizado em situações clínicas e de pesquisa8,9,13,16,17,18,19.

White et al.6, utilizaram o FIQ e relatam que a Fibromialgia causa um impacto negativo na qualidade de vida de pacientes em idade produtiva de trabalho. Isso porque, além da dor, os sintomas de fadiga e fraqueza subjetiva causam perda da função levando à incapacidade para o trabalho e, conseqüentemente, à queda da renda familiar refletindo na qualidade de vida dessas pessoas.

Já os instrumentos genéricos foram desenvolvidos com o objetivo de estudar a qualidade de vida de indivíduos com qualquer patologia, ou mesmo de indivíduos saudáveis. Muito utilizado, o Medical Outcomes Study 36-item Short-Form Health Survey (SF-36)20, é um instrumento genérico e multidimensional de avaliação da qualidade de vida que engloba oito aspectos: capacidade funcional (10 itens), aspectos físicos (4 itens), dor (2 itens), estado geral de saúde (5 itens), vitalidade (4 itens), aspectos sociais (2 itens), aspectos emocionais (3 itens), saúde mental (5 itens) e mais uma questão de avaliação comparativa entre as condições de saúde atual e de um ano atrás. Cada componente varia de zero a cem, sendo zero o pior escore e, cem o melhor. Foi validado e traduzido para o português por Ciconelli21 que concluiu que este instrumento traduzido e adaptado à cultura brasileira é de fácil e rápida administração. O SF-36 tem sido utilizado como medida genérica de avaliação da qualidade de vida em condições como artrite reumatóide e osteoartrite22, além da análise do impacto na qualidade de vida em pacientes com fibromialgia16. Além disso, já foi utilizado para avaliar a qualidade de vida após intervenções medicamentosas17 e de um programa de exercícios18 .

Neste sentido, é fundamental encontrar formas efetivas de avaliação dos sintomas da fibromialgia, e do impacto na qualidade de vida, uma vez que uma avaliação correta e completa pode contribuir para propor diferentes formas de abordagem a estes pacientes.

O objetivo desse estudo foi avaliar a depressão e a qualidade de vida de pacientes com fibromialgia e identificar qual dos instrumentos utilizados (FIQ, SF-35 e BDS) tem maior poder de discriminação entre sujeitos com e sem fibromialgia.

Materiais e Métodos

Sujeitos

Participaram do estudo 40 indivíduos, divididos em dois grupos:

1. Grupo Teste (GT) com 20 pacientes com diagnóstico de fibromialgia originários do Ambulatório de Reumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), classificados segundo os critérios do Colégio Americano de Reumatologia2. Todos os pacientes estavam sob acompanhamento médico, com tratamento medicamentoso individualizado, e foram encaminhados ao serviço de Fisioterapia. Foram incluídos na amostra os que preenchiam os critérios de inclusão, até que se completasse o número predefinido de 20 sujeitos.

2. Grupo Controle (GC) com 20 sujeitos não fibromiálgicos, sem diagnóstico de patologias nos sistema musculoesqueletico e neurológico ou queixas incapacitantes nestes sistemas. Estes sujeitos foram selecionados por conveniência, respeitando os critérios de inclusão.

Os sujeitos foram selecionados de acordo com os seguintes critérios:

a. Idade entre 35 e 60 anos;

b. Nível cognitivo adequado para entender os procedimentos e orientações dadas;

c. Assinar o Termo de Consentimento Pós-Informação, no momento que consente em participar do estudo. A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética do HCFMUSP.

Não houve perda amostral em nenhum dos grupos.

Instrumentos: A avaliação dos sujeitos foi realizada utilizando-se a ficha de avaliação da Fisioterapia no ambulatório de Fibromialgia do HCFMUSP, constando dados pessoais e anamnese e os instrumentos Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQ), Medical Outcomes Study 36-item Short-Form Health Survey – SF-36 e Escala de depressão de Beck (BDS).

Local: Serviço de Fisioterapia do Ambulatório de Fibromialgia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Procedimento: Todos os pacientes encaminhados à Fisioterapia foram entrevistados. A avaliação foi realizada na primeira sessão, previamente a qualquer intervenção fisioterapêutica e sob acompanhamento médico. Os indivíduos foram entrevistados obtendo-se dados pessoais e clínicos. As medidas de qualidade de vida foram obtidas com a aplicação do Fibromyalgia Impact Questionnaire (FIQ)15 e do Medical Outcomes Study 36-item Short-Form Health Survey (SF-36)20, versão validada para a língua portuguesa por Ciconelli21. Os dados da depressão foram obtidos com escala de depressão de Beck (BDS)7, traduzida e validada em português por Gorenstein e Andrade23.

Dada a dificuldade de leitura dos pacientes, optou-se pela avaliação na forma de leitura conjunta realizada sempre pelo mesmo examinador. Este procedimento também foi adotado no grupo controle.

Análise estatística

Para a comparação dos dois grupos, foi usado o teste t-Student para duas amostras independentes e o teste de homogeneidade com a estatística Qui-quadrado de Pearson, com correção de Yates quando necessário. Para o estudo de associação entre os resultados dos instrumentos utilizou-se a estatística t*-Student para testar a existência de correlações.

Para uma melhor comparação e possíveis composições, realizou-se a normalização dos resultados obtidos com os três questionários, FIQ, SF-36 e BDS. O objetivo foi o de que todos os índices variassem dentro dos mesmos limites, no caso entre 0 e 10. Para o cálculo do FIQ dividiu-se a variável Capacidade Funcional por 3 para que seu máximo fosse 10 como nas outras variáveis do FIQ. A medida final do FIQ é obtida pela média dos valores obtidos pelas oito variáveis relevantes. O índice assim obtido, NFIQ, é um número no intervalo de 0 a 10. Para o SF-36, dividiu-se a média das variáveis componentes do SF por 10. Dessa forma, também o índice obtido a partir deste questionário NSF36 assume valores entre 0 e 10. O índice, NBDS, obtido a partir do BDS corresponde ao valor original do BDS multiplicado por 10 e dividido por 63 que, conseqüentemente, também varia entre 0 e 10.

A partir dos três índices acima descritos construiu-se um Índice de Qualidade de Vida (IQL) do qual se espera que altos valores indiquem boa qualidade de vida enquanto baixos valores indicam qualidade de vida prejudicada. Como os altos valores do FIQ e BDS indicam baixa qualidade de vida, estes compõem o denominador do índice. Por outro lado, o SF-36 está na direção inversa, quanto maior melhor e, portanto, foi definido como numerador do índice. A definição do IQL, utilizando-se os índices normalizados, é dada pela seguinte equação:

IQL= (NSF-36) ÷ (NFIQ+NBDS+1)

Acrescentou-se o valor 1 no denominador para impedir uma possível divisão por zero.

Toda a análise estatística foi realizada com nível de significância de 0,05.

Resultados

A análise dos dados demográficos (Tabela 1) não evidenciou diferença estatisticamente significante entre os grupos, mostrando que eram homogêneos em relação à idade, sexo e IMC. A exceção foi a altura, que apresentou diferença estatisticamente significante (p=0,02), com médias 1,56 cm no GC e 1,61 cm no GT, fato que, no entanto, não alterou a relação entre peso e altura do IMC. Em relação ao nível de escolaridade somente 10% do grupo teste e 45% do grupo controle tinham nível universitário. Todos os participantes eram do sexo feminino.

De forma geral, grupo teste e grupo controle são estatisticamente distintos quanto à qualidade de vida e depressão, avaliados respectivamente pelo FIQ, SF-36 e Escala de Beck.

Os resultados obtidos pela aplicação do questionário específico, FIQ, evidenciou diferença estatisticamente significante entre o grupo controle e o teste (valor p < 0,05), para todos os seus itens, com exceção do item faltas no trabalho. Todos os itens estão listados na Tabela 2.

Com relação à avaliação genérica do SF-36, os grupos apresentaram, em todos os itens, diferenças estatisticamente significantes (valor p < 0,05). Os resultados estão listados na Tabela 3.

Relativamente à depressão, avaliada pela escala de depressão de Beck, novamente os dois grupos apresentam diferença estatisticamente significante (valor p < 0,05). As médias (desvios padrão) dos grupos controle e teste foram, respectivamente, 9,5 (6,44) e 17,75 (11,23).

Poder discriminatório dos questionários

O índice de qualidade de vida (IQL) foi construído para melhor visualizar o poder discriminatório dos instrumentos utilizados. Valores altos indicam boa qualidade de vida e baixos, qualidade de vida prejudicada.

O gráfico dos percentis da Figura 1 ilustra o poder discriminatório dos três instrumentos utilizados. Todos se mostraram eficazes para a determinação do grupo que o individuo pertence. Esta qualidade é ilustrada pelas curvas de percentis devido às respectivas diferenças visuais entre as curvas correspondentes. Fica evidente pelas curvas que o FIQ é um instrumento com maior poder discriminatório do que o SF-36 que, por sua vez, tem maior poder do que o BDS. Por exemplo, no percentil 60% o FIQ do grupo teste tem valor 8 e do grupo controle 3 enquanto para o SF-36 os valores encontram-se entre 8 e 4 e entre 4 e 2 para o BDS.

A Figura 2 mostra o gráfico de percentis do índice da qualidade de vida (IQL) dos grupos teste e controle. Esta figura ilustra a diferença da qualidade de vida existente entre o grupo teste e o grupo controle, lembrando que valores altos indicam boa qualidade de vida. Por exemplo, no percentil 80% o grupo teste tem valor próximo de zero e o controle próximo de quatro.

Discussão

O impacto negativo que a fibromialgia causa na qualidade de vida de indivíduos, tem sido relatado por muitos estudos5,6,25. O FIQ é um instrumento que tem sido usado em vários estudos clínicos para avaliar a função física e o impacto da fibromialgia na qualidade de vida de pacientes15,19 e para medir a eficácia de intervenções terapêuticas10,13,18, dentre elas a fisioterapia8,9,11. Neste estudo, observa-se que o FIQ é o instrumento que melhor discrimina pacientes fibromiálgicos de indivíduos saudáveis, mostrando piores índices de qualidade de vida quando comparado com o grupo não fibromiálgico.

O SF-36 é outro questionário que avalia a qualidade de vida, porém menos específico que o FIQ. Ele a avalia de modo genérico, considerando capacidade funcional, aspecto físico, dor, estado geral de saúde, vitalidade e características sociais e emocionais além de saúde mental. Os dados obtidos com este instrumento também mostram que a qualidade de vida dos fibromiálgicos é bem inferior aos indivíduos saudáveis e os domínios mais comprometidos foram o aspecto físico, a dor, a vitalidade e a capacidade funcional, em ordem decrescente. Já os domínios menos comprometidos foram o aspecto social e a saúde mental.

Estes resultados podem ser comparados aos obtidos em outros estudos que sugerem que indivíduos com doenças crônicas, entre elas a fibromialgia, têm pior qualidade de vida do que a população saudável16,17,19,25.

O BDS, um dos instrumentos utilizados para avaliar a depressão, já foi utilizado em vários estudos para avaliar efeitos de tratamento8,9,10,11,25. No presente estudo, embora os valores sejam estatisticamente significantes, este instrumento foi o que menos discriminou o grupo teste do grupo controle, provavelmente pelo fato de a depressão ser considerada um sintoma secundário na fibromialgia2.

É importante observar que mesmo o grupo controle apresenta um valor diferente de zero nesta medida (Tabela 4), sugerindo que um valor esperado nulo em um estudo terapêutico não deve ser a hipótese principal quando se utiliza este instrumento como medida de depressão. Gorenstein e Andrade23 afirmam que valores do BDS acima de 16 já indicam possível depressão. Dessa forma, é possível verificar que os pacientes com fibromialgia deste estudo apresentam este traço de depressão, aspecto este que também pode ser constatado nos resultados obtidos, de forma mais objetiva, no item depressão do FIQ com valores 6,48 e 2,58 para os grupos teste e controle respectivamente.

Como vimos, este estudo mostra que os três questionários são capazes de distinguir indivíduos com fibromialgia de saudáveis. O FIQ é o mais eficiente para caracterizar a fibromialgia, seguido pelo SF-36 e o BDS (Figura 1), o que era esperado uma vez que, este questionário foi especialmente construído para avaliar esta população. Resultados semelhantes foram relatados por Marques24.

Os resultados aqui obtidos confirmam a eficácia destes instrumentos para avaliar a qualidade de vida e depressão em indivíduos com fibromialgia, dando margem para sua utilização na prática clínica a fim de identificar as necessidades dos pacientes e avaliar a efetividade da intervenção.

Conclusão

O grupo de pacientes com fibromialgia tem pior qualidade de vida e níveis mais altos de depressão quando comparado com o grupo controle. Isto sugere que pode haver relação entre fibromialgia e depressão e que este pode ser considerado um sintoma secundário da fibromialgia.

Comparando os três questionários – FIQ, SF-36 e BDS – é possível concluir que todos são eficientes para avaliar a qualidade de vida e a depressão. Entretanto, como o FIQ é um instrumento específico, dos três é o que melhor discrimina o grupo teste do grupo controle.

Escrito por: Santos AMBI; Assumpção A; Matsutani LA; Pereira CAB; Lage LV; Marques AP

Deixe um comentário