Tecnologia Assistiva em materiais de PVC na reabilitação de crianças com disfunção neuromotora

A lesão ou má formação no cérebro imaturo pode permitir que aconteça uma disfunção neuromotora, deixando sequelas irreversíveis no sistema neuropsicomotor da criança, a mesma apresentará dificuldades em graus variados, em manter posturas, realizar movimentos normais, deficiências associadas ao quadro motor, comprometimento do desenvolvimento global, retardo mental, deficiência visual, auditiva, distúrbio de comunicação e de comportamento.

No entanto a maior dificuldade dos profissionais que atuam com essa clientela é ter acesso a recursos que auxiliem no tratamento visando à manutenção de posturas mais normalizadas fora do ambiente terapêutico, seja em casa ou na escola. A problemática esta em como adequar corretamente a criança sem ter recursos econômicos. Logo surgiu a ideia no curso de Terapia Ocupacional da Universidade Católica Dom Bosco no ano de 2006 com a Professora Mestranda Grace Claudia Gasparinni a confecção de mobiliários em PVC, onde se avaliou cada criança em domicilio e suas necessidades da vida diária e prática.

A Terapia Ocupacional e a Fisioterapia através da Tecnologia Assistiva têm como objetivo buscar recursos alternativos de baixo custo que possibilitem as crianças com disfunção neuromotora terem em seus lares, equipamentos que lhe proporcionem melhor postura na realização das atividades da vida diária (auto-cuidado, alimentação, vestuário, higiene), proporcionar um melhor alinhamento corporal, necessário para a recepção de estímulos proprioceptivos providos de uma postura mais normalizadas. Os resultados obtidos com a experiência foram o bom desempenho bimanual, adequação de posturas, normalização de tônus e diminuição dos reflexos presentes nas patologias. Concluiu-se que o PVC é um material de baixo custo, fácil manuseio, leve, higiênico e pode ser facilmente transportado para qualquer local, proporcionando assim, qualidade de vida, independência e prevenção de contraturas e deformidades nas crianças com disfunção neuromotora.

Introdução

Este trabalho tem por finalidade enfatizar como as crianças com disfunção neuromotora podem se beneficiar no processo de reabilitação através da tecnologia assistiva em materiais de PVC, demonstrando por meio de estudos de casos os benefícios deste recurso.

O PVC é um material de baixo custo, que visa atender uma população desfavorecida economicamente.

A causa da disfunção neuromotora pode ser congênita ou adquirida, uma condição causada por uma lesão no cérebro, ocorrendo antes, durante ou após o nascimento, ou por fatores genéticos. As crianças com disfunção neuromotora podem apresentar “déficits” sensoriais que vão desde alterações da sensibilidade profunda (propriocepção), sensibilidade superficial (tátil), visual, auditiva, vestibular e “déficits” motores dificultando a manutenção da postura adequada e a realização dos movimentos normais.

As alterações do tônus muscular, classificados em flutuante (atetoses: movimentos bruscos e incoordenados), espástico (musculatura rígida) e hipotônico (musculatura flácida), comprometem o desempenho funcional dos pacientes, interferindo significativamente no seu desenvolvimento global.

Em virtude das alterações motoras e sensoriais que podem comprometer significativamente a qualidade de vida dessa população, faz-se necessário pesquisar materiais de baixo custo que possam servir como recursos para a confecção de equipamentos adaptados que visam atender suas necessidades, seja no ambiente doméstico ou escolar, facilitando sua inclusão no contexto social.

O PVC tem sido hoje o material mais acessível economicamente, bem como um material de fácil manejo e que proporcione um bom “design”.
Os objetivos propostos nesse estudo foram:

  1. Demonstrar a importância da postura adequada e sua relevância no processo de desenvolvimento neuromotor infantil e o fácil acesso a materiais de baixo custo para confecção de equipamentos adaptados;
  2. Descrever a relevância que o equipamento adaptado em PVC, pode proporcionar para um melhor alinhamento corporal, necessário para a recepção de estímulos proprioceptivos providos de uma postura mais normalizada;
  3. Analisar o comportamento postural das crianças com disfunções neuromotoras, favorecendo a participação da criança na higiene pessoal e no controle do esfíncter, a coordenação dinâmica manual, independência nas atividades de vida diária e da vida prática (comer, brincar, ver televisão).

Metodologia

A pesquisa proposta caracteriza-se como sendo de campo,descritiva, exploratória e observacional, com crianças que apresentam disfunção neuromotora.

A pesquisa qualitativa baseia-se nas representações sociais e na visão de mundo dos sujeitos envolvidos. Igualmente a pesquisa pretende fazer uma abordagem diagnóstica, implicando análise detalhada e prognóstico.

A pesquisa foi realizada com crianças que apresentam distúrbios neuromotores com características que diferem quanto ao grau de comprometimento e tônus muscular. A foi realizada na residência de cada criança estudada e na Clínica Escola – UCDB, nos seguintes endereços:

  • E.B.R.S. Endereço Avenida Eduardo Elias Zaram nº 2695 Bairro: Antonio Vendas. Cidade: Campo Grande/MS
  • L.E.O.L. Endereço: Rua Santa Clara nº 1007. Bairro: Parque dos Laranjais Cidade: Campo Grande/MS
  • Clinica Escola – UCDB: Avenida Tamandaré nº6000 Bairro: Jd Seminário Cidade: Campo Grande/MS

Para a pesquisa proposta foi selecionado 2 crianças do sexo feminino, que apresentam distúrbios neuromotores.

Foram confeccionados para a menina L.E.O.L as cadeiras: rolo, vaso, banho e de 90º em PVC, no laboratório da Universidade Católica Dom Bosco no mês de março de 2006 pela estagiária na época e pelos pais da mesma.

Para a menina E.B.R.S. foi confeccionada a cadeira 90º e de banho, no laboratório da Universidade Católica Dom Bosco no mês de março de 2006 pela estagiária na época e pela mãe.

Durante quatro meses as crianças foram observadas nos equipamentos adaptados em PVC confeccionadas para cada criança de acordo com seu tamanho e necessidade.

Os dados da pesquisa ora propostos forão coletados mediante observações e registro sistemático, bem como revisão bibliográfica sobre o assunto.

Os equipamentos utilizados para os mobiliários forão: tubo de esgoto de 40mm de PVC, tampões de solda 40mm, TÊS de 40mm, MDF, fio plástico, cotovelos de 90º 40mm, cotovelos de 45º 40mm, cerra, lixas, soldador e fita métrica.

Os dados coletados forão discutidos e analisados mediante a comprovação da relevância da intervenção da Terapia Ocupacional e Fisioterapia através de equipamentos adaptados em PVC, com a comparação e análise fotografias, demonstrando a evolução do quadro das crianças selecionadas.

Resultados

A avaliação terapêutica ocupacional na confecção de cada mobiliário foi realizada através da analise da tarefa em observações a domicilio durante um mês, onde se avaliou as necessidades básicas das atividades da vida diária de cada criança estudada, chegando assim ao correto mobiliário.

A continuidade do projeto se deu na verificação periódica e treinamento visando à funcionalidade da adaptação.

A paciente L.E.O.L., sexo feminino, com 7 de idade na época (2006) apresenta diagnóstico clínico de paralisia cerebral do tipo quadriplegia espástica. Adquiriu controle cervical com 1 ano e 6 meses; não engatinha, não anda, faz uso de fraldas por não ter controle de esfíncteres. Os pais relatam que a maior dificuldade em relação à filha é a manutenção de postura para a realização das atividades de vida diária e vida prática tais como: alimentação, higiene, passeio e a prevenção de contraturas e deformidades músculo-esqueléticas.

Após as orientações da Terapeuta Ocupacional, foram confeccionadas 4 modelos de cadeira: cadeira rolo para manter MMII em abdução, cadeira para vaso, cadeira de banho e cadeira a 90º.

A cadeira rolo mantém MMII em abdução, favorece melhor alinhamento para articulação do quadril, previne contraturas e deformidades na região lombo-sacral. Esse posicionamento favorece um padrão postural mais normalizado, permitindo assim que a criança iniciasse a alimentação, funcionalidade para manuseio de brinquedos e objetos com independência, o que, segundo a mãe, propiciou diminuição de seus afazeres em relação à criança (figura1).

A cadeira para vaso possibilita o controle dos esfíncteres, eliminando assim o uso de fraldas (figura 2).

A cadeira de banho favorece melhor posicionamento para a criança e também maior facilidade para os pais no manuseio da mesma durante essa atividade (figura 3).

Por fim, a cadeira de 90º, devido a sua facilidade de transporte, está sendo usada nos cultos da igreja e na escola, favorecendo sua participação no contexto social e nas refeições à mesa com a família (figura 4).

O segundo estudo com a paciente E.B.R.S., do sexo feminino, com 4 anos de idade na época (2006), apresenta diagnóstico clínico de Síndrome de Edwards. O controle cervical é precário, não tem controle de esfíncteres e não anda. A mãe relata que a maior dificuldade em relação à filha é a manutenção da postura para a realização das atividades de vida diária e vida prática: alimentação, higiene e a prevenção de contraturas e deformidades músculo-esquelético.

Após orientações da Terapeuta Ocupacional, foram confeccionadas uma cadeira de 90º e uma cadeira de banho.

A cadeira de 90º, possibilitou uma postura sentada mais normalizada, com quadril, joelhos e pés em angulação de 90º. Essa melhor postura possibilita que a criança inicie o treino da alimentação e independência das atividades de vida diária. A cadeira proporcionou manuseio adequado dos objetos e brinquedos, estimulando o desenvolvimento perceptual e cognitivo, além de favorecer na prevenção de deformidades na coluna cervical, torácica e lombo-sacral (figura 5).

A cadeira de banho possibilitou melhor posicionamento para a realização dessa atividade.

Discussões

A Paralisia Cerebral, por ser uma desordem do movimento e da postura decorrente de um defeito ou lesão do cérebro imaturo, provoca debilidade variável na coordenação da ação muscular com resultante incapacidade da criança em manter posturas e realizar movimentos normais. Nessa patologia ocorre alteração de tônus muscular, podendo ser caracterizado como hipertonia (rigidez) ou hipotonia (flacidez).BOBATH 1989

Através das características de hipertonia e hipotonia presentes nas crianças do estudo, observa-se a necessidade e a importância de se ter um mobiliário em PVC ainda no período infantil (0 à 8 anos), pois essa é a fase em que ocorre a maturação e desenvolvimento do cérebro. Esses mobiliários proporcionam “imputs” proprioceptivos para o cérebro assimilar postura adequada. GASPARINI 2006

Na primeira paciente foi observado que a mesma apresentava um aspecto cognitivo preservado. Com isso, a criança aprendeu a ter independência nas atividades de vida diária e prática com pouco treino. Outra característica foi quanto à prevenção de contraturas e deformidades, pois a mesma poderia apresentar escoliose, cifose, lordose, rigidez articular e ausência de amplitude de movimento caso não houvesse um correto posicionamento no período essencial do desenvolvimento neuropsicomotor.

A Síndrome de Edwards, também conhecida como trissomia 18, apresenta como características a anomalia cardíaca em 58% dos casos. O refluxo gastroesofágico também está presente em 80% dos casos de portadores desta síndrome, além de comprometimento do Sistema Nervoso Central, que atinge cerca de 30%, manifestando-se como mielomeningocele, anomalias do corpo caloso e/ou hidrocefalia. REIMÃO 2002

Outra característica importante é a presença de hipotonia nessa síndrome. Foi observado na segunda paciente que a mesma adquiriu controle cervical e controle de tronco em poucos meses de uso do mobiliário em PVC, além da prevenção de contraturas e deformidades, já citadas na primeira paciente.

Uma análise quanto à postura mostra que, nos 2 casos, houve facilitação do “brincar”, melhora na coordenação bimanual e visomotora após o uso contínuo do mobiliário de PVC.

Os materiais de PVC supriram as reações de equilíbrio e de retificação ausentes nessas pacientes. Segundo BOBATH, essas reações, vistas a partir dos 3 ou 4 anos de idade aproximadamente, permitem que a criança matenha postura e um bom equilíbrio da cabeça, tronco e extremidades inferiores, enquanto os braços e as mãos permanecem livres para atividade manipulativa específica.

Os reflexos tônicos não estavam presentes. Porém, é importante salientar que o correto posicionamento proporcionado pelos equipamentos em PVC, inibiria esses reflexos caso alguma criança apresentasse-os.

Esses reflexos tônicos prejudicam a manutenção da postura e um correto posicionamento. Como exemplo disso, uma criança que apresenta RTCA (reflexo tônico cervical assimétrico), pode impedir a mesma de alcançar e pegar um objeto enquanto olha para ele, além de não conseguir levar a mão e os dedos até a boca.

Conclusão

A Terapia Ocupacional tem como objetivo adaptar a vida do individuo de acordo com sua necessidade, assim modificando a tarefa, o meio ambiente, promovendo a independência, função, para o melhor conforto e adequação postural do individuo. Analisado então a importância do uso das adaptações como auxilio na diminuição de padrões anormais, o que favorece a funcionalidade, proporciona benefícios aos pacientes portadores de disfunção neuromotora, favorece posturas mais normalizadas, alinhamentos das articulações e independência na realização das atividades da vida diária. No entanto verifica-se a necessidade do terapeuta ocupacional a abordagem explicativa para os pais do uso correto, da manutenção e da confecção do material, para que assim se tornem aliados ao tratamento da terapia ocupacional e fisioterapia.

O projeto do mobiliário adaptado em PVC é inovador na área da reabilitação neuromotora, a confecção destes equipamentos para favorecer posturas e facilitar a ação propiciam as crianças respostas adaptativas tais como: satisfação e sucesso do desempenho ocupacional.

Houve melhora na qualidade de vida e no desempenho neuromotor proporcionado pela flexibilidade do equipamento, que em médio prazo ira contribuir para um menor índice de deformidade.

Acredita-se que pelo fato de permanecerem em equipamentos adaptados, essas crianças recebam mais “inputs” proprioceptivos adequados do que quando colocadas em posições inadequadas, e, por conseguinte, apresentam melhor postura.

Assim viu-se que as vantagens dos mobiliários em material de PVC são: baixo custo e acessibilidade a toda população; leveza; facilidade de locomoção e adaptação domiciliar; durabilidade e flexibilidade; simplicidade e rapidez na confecção; possibilidade de confecção de diversos modelos de mobiliários e bom “design”.

Logo concluiu se que a importância de adaptações de baixo custo para a população desfavorecida economicamente, proporcionou evoluções qualitativas e significativas no tratamento e desenvolvimento neuropsicomotor, favorecendo a funcionalidade das atividades da vida diária.

Referências

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  • BOBATH, K; KÖNG, E. Trastornos cerebromotores en el niño, 4. ed. Buenos Aires, Editora Médica Panamericana S.A., 1992.
  • BOBATH, Karel. Uma Base Neurofisiológica para o Tratamento da Paralisia Cerebral, 2 ed.Manole, 1989.
  • FRANCISCO, Berenice Rosa. Terapia Ocupacional, Campinas: Papirus, 1988.
  • GASPARINI, Grace Cláudia. Apostila 7o. semestre terapia ocupacional, Campo Grande-MS, 2006. (Apostilado)
  • Http: //www.emglab.com.br/html/espasticidade.html. Acesso em 28 de março de 2006, 17h40 min
  • MARQUES, Heitor Romero; MANFROI, José; DE CASTILHO, Maria Augusta. Metodologia da pesquisa e do trabalho científico. Campo Grande: UCDB, 2006. (Disponível em http://www.ucdb.br/docentes/Heitor).
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  • MINISTERIO DA SAÚDE. Obtida via Internet. Decreto Nº 3.956, de 08 de outubro de 2001 e Decreto Nº 5.296 de 02 de dezembro de 2004 – DOU de 03/122004. http://www.planalto.gov.br/ccivil/_03/decreto/2001/d3956.htm. Acesso em 27 de março de 2006, 18h35min.
  • PIMENTEL, Laura Thereza; MOLIM, Sara Jane. Desenvolvimento neuro-motor e estimulação sensório-motora. Série-Estudos: periódico das Comunidades Departamentais da UCDB. Campo Grande. n.17, p.53-55, outubro 2000.
  • REIMÃO, Rubens; GAGLIARDI, Rubens José; SPINA, Antonio. Temas Neurologia, São Paulo: Frôntis, 1999.
  • WILLARD e SPACKMAN. Terapia Ocupacional, 9 ed, Rio de Janeiro: Guanabara e Koogan,2002.

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