Síndrome de Munchausen – Pseudoparaplegia

Publicado em 21 de janeiro de 2015

SÍNDROME DE MUNCHAUSEN E PSEUDOPARAPLEGIA

Síndrome de Munchausen-Pseudoparaplegia

Síndrome de Munchausen - Pseudoparaplegia

Síndrome de Munchausen – Pseudoparaplegia

RESUMO : Apresentamos uma paciente com “paraplegia” de oito anos de evolução, que se internou para retirada de agulhas em região lombar e apresentava história de insuficiência renal, câncer de esôfago, ovários e mama, suspeita de tuberculose pulmonar e várias internações em hospitais clínicos e internações em hospitais clínicos e psiquiátricos. No exame psiquiátrico encontramos indiferença à sua doença, prolixidade e descrição detalhada de seus problemas, falando mal dos atendimentos anteriores. Não encontramos evidências de processos neoplásicos. Tinha movimento em bloco de membros inferiores, com preservação dos reflexos e sensibilidade. A eletromiografia, a tomografia de crânio, a ultra-sonografia abdominal e o RX de tórax foram normais. No RX e na tomografia de coluna lombo-sacra observamos 16 agulhas, semelhantes às de costura, em partes moles. Diagnosticada como síndrome de Munchausen, depois de 15 dias de internação com tratamento antidepressivo, psicoterapia e fisioterapia, melhorou. Três meses depois, a paciente encontrava-se assintomática, não voltando mais ao ambulatório.(Síndrome de Munchausen-Pseudoparaplegia)

PALAVRAS CHAVES: síndrome de Munchausen, pseudoparaplegia. Karl Friedrich Hieronymus von Munchausen (1720-1797) serviu nas forças armadas russas na guerra contra os turcos (1672-1763). Após brilhante carreira militar aposentou-se e foi morar perto de Hannover, onde divertia seus amigos e convidados com recordações de suas aventuras na maioria das vezes de forma exagerada, porém não existem evidências que levasse suas histórias à sério. Em 1785, Rudolf Eric Raspe publica o livro “Baron von Munchausen`s narrative of his marvellous travels and campaings in Russia”, sem o conhecimento e consentimento do verdadeiro Barão1,2. Em 1951, Asher descreve 3 pacientes com histórias dramáticas e falsas e sugere o nome de síndrome de Munchausen pois os pacientes, à semelhança do Barão, perambulavam de hospital em hospital, elaborando suas enfermidades3. A síndrome de Munchausen é considerada no DSM-IV uma forma crônica de transtorno fictício, com sintomas físicos diferente da simulação pela inexistência de ganhos óbvios, e dos transtornos conversivos pela produção consciente dos sintomas4. Entre as características essenciais da síndrome incluem-se a apresentação dramática de sintomas com uma ou mais queixas fictícias, exageradas, mentiras sobre a própria vida, e passagens por múltiplos hospitais5. As poliformes e variadas manifestacões clínicas da síndrome de Munchausen descritas na literatura são: abdominal, torácica, hemorrágica, neurológica, cutânea, cardíaca, respiratória, endócrinas, reumatológicas, febril e mista6-12 podendo dentro destas categorias ocorrer ampla variedade de apresentações, limitadas somente pela imaginação e conhecimentos médicos do paciente. As manifestações neurológicas são variadas e na literatura tem-se reportado pacientes com apraxia13, crises convulsivas e estado de mal convulsivo14-16, meningite17, encefalite18 e hemorragia subaracnoídea19, porém não observamos relatos de paraplegia de longa duração como forma de apresentação desta síndrome, motivando nossa apresentação.

RELATO DE CASO

CTM, feminina, 36 anos de idade, aposentada, procedente da região metropolitana de Curitiba. Internada no Hospital Universitário Cajuru em junho de 1996 por impossibilidade para deambular e para retirar agulhas na região lombar. Relata que oito anos atrás ficou internada 45 dias por ameaça de aborto. Ao mês do nascimento de sua filha apresentou quadro de cefaléia fronto-occipital, hipertensão arterial de 280/160 e hemiparesia direita, que no dia seguinte passou para o lado esquerdo com dificuldade para a fala, ficando assim durante um ano. Em 1990 internou durante oito meses por tumor na coluna lombar e o neurologista, segundo ela, fez o diagnóstico sem fazer exame algum. Foi operada e encontrado um tumor benigno. Nessa cirurgia foram deixadas 18 agulhas, ficando quadriplégica e com bexiga neurogênica. Três anos depois recuperou a força muscular dos membros superiores, com fisioterapia. Desde então, encontra-se em cadeira de rodas por impossibilidade de movimentar os membros inferiores acompanhado de anestesia, como já tinha acontecido com outros pacientes operados pelo mesmo médico. Antecedentes mórbidos pessoais: Alergia a carne do porco. Insuficiência renal aos 10 anos de idade. Anemia aos 11 anos. Broncopneumonia aos 13 e 14 anos. Internada em hospital psiquiátrico em 1988 por psicose, os médicos falaram que não tinha nada e ficou hospitalizada por 60 dias para que os médicos pudessem cobrar do SUS. Em 1988 câncer de ovário, operada em 27/dezembro/88. Em 1989 fez tratamento com radioterapia e quimioterapia para câncer de esôfago (quando foi sugerido fazer endoscopia, falou que seu câncer foi curado). Em 1990 internou por suspeita de tuberculose pulmonar. Em 1994 suspeita de câncer de mama. Litíase renal e infeção urinária a repetição. Diz que “estou doente desde o nascimento”. Antecedentes mórbidos familiares: Pai vivo, hipertenso, operado de hérnia epigástrica e com doença cerebrovascular. Mãe viva, hipertensa, com tumor de vagina e operada de varizes. Três irmãs; a maior, hipertensa, fez histerectomia e tem problemas na tireóide; a segunda tem hipertensão arterial, problemas de vesícula e anemia; a terceira tem osteomielite. História psicossocial: Segunda filha de uma prole de quatro, não desejada pela mãe, alcoólatra. Nunca teve carinho de seus pais, separados há 10 anos. Três meses após a separação, a mãe juntou-se com um alcoólatra que queria matar todas as filhas, separando-se dele, decorrido um mês por pressão de suas filhas que alegaram receber maus tratos do homem. Terminou o segundo grau com bom rendimento escolar. As pessoas e familiares a rejeitaram, discriminavam-na e maltrataram-na. Teve seis namorados até os 16 anos de idade, por ser muito bonita e quente a chamavam de biscate. Teve dois filhos com seu primeiro esposo, um relacionamento que durou cinco anos. Quatro anos depois, casou-se com seu atual esposo, homem doente que ficou sem deambular três anos, depois de um acidente em 1988. Faz 10 anos não tem prazer sexual com seu esposo, e gostaria de ser homem. Seu primeiro emprego aos 17 anos de idade, foi como professora do ensino fundamental, abandonando-o três anos depois, porque teve ataque forte dos nervos. Fez curso de assistente social e trabalhou durante dez anos transportando pacientes. Aposentada por enfermidade, tem vontade de trabalhar na saúde pública. Nota: No relato, a paciente refere os nomes dos mais de dez médicos e hospitais que, segundo ela, a atenderam. Exame psiquiátrico: prolixidade, descrição detalhada de seus problemas, fala mal de todos os atendimentos anteriores, extremamente familiar, indiferente à sua doença e eufórica, teatral, lábil, com manerismos e taquilalia. Exame físico geral e por sistemas sem alterações, cicatriz de 5 cm em fossa ilíaca direita e outra de 5 cm na região lombo-sacra. Exame neurológico: ausência de movimentos voluntários nos membros inferiores. Eleva em bloco os membros ao trasladar-se do leito para a cadeira. Tono, trofismo, e reflexos normais. Exames complementares: hemograma, VHS, HIV, glicemia, creatinina, provas de função hepática, parcial de urina, RX de tórax, ecografia abdominal e tomografia de crânio normais.

Fonte :Arquivos de Neuro-Psiquiatria ISSN 0004-282X versão impressa . Arq. Neuro-Psiquiatr. v.57 n.3B São Paulo set. 1999

 

Leiam mais sobre o assunto em : http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X1999000500026

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