Ecos da Musicoterapia…

Publicado em 31 de outubro de 2014

Começo por interlocução. Se pensarmos a interlocução como o ato que supõe um discurso e uma escuta, poderíamos dizer que Musicoterapia e Psicanálise produziriam, cada qual, um discurso teórico-clínico específico e singular que, em conseqüência, as situaria, igualmente, num lugar de escuta também bastante específico e singular.

Quais seriam, esse discurso, e essa escuta?

Não é o caso, nesse momento, de desenvolvermos, aqui, toda a especificidade e complexidade de cada um desses lugares de discurso e de escuta teórico-clínica, respectivamente.

Para pensar uma interlocução possível, proponho, como referência, a definição, por um lado, de Musicoterapia, formulada, em 1996, pela Federação Mundial de Musicoterapia, e, por outro, a definição de Psicanálise dada por Joel Birman no texto A prosa da psicanálise, de setembro de 1990.

Vamos a elas:

“Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.

A Musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, conseqüentemente, uma melhor qualidade de vida, pela prevenção, reabilitação ou tratamento”.

“A psicanálise seria uma experiência entre alguém que fala e um outro que escuta, constituindo um espaço […] fundado na transferência, no qual a linguagem é sua condição de possibilidade pois funda a regra fundamental dessa experiência. Com efeito, para a figura do analisante é preciso dizer tudo que lhe vem ao espírito, livre associação; para a figura do analista, a atenção flutuante”.

Passemos, agora, às categorias do saber e do trabalho em equipe, estreitamente ligadas, uma vez que só há trabalho em equipe se houver interlocução entre os saberes que sustentam os profissionais que a compõem.

O saber, os saberes. Há muito há dizer sobre o saber. A epistemologia e a filosofia que o digam. Com Lacan, pensaremos ser muito mais rigoroso falar de “saberes”, como nos propõe o tema dessa mesa-redonda, uma vez que o Saber Absoluto não existe. Para Lacan, o saber é o lugar da alteridade, do Outro, o lugar que aponta para a possibilidade de sentido, o lugar da verdade. Portanto, o saber é sempre Outro, outros saberes. Falamos do saber inconsciente. Do campo teórico específico da psicanálise, proponho a seguinte questão: por que não pensar que, no trabalho em equipe, para cada disciplina, o saber poderia ser apontado por cada Outro campo constituído pelas outras disciplinas ? Explico-me: se é na alteridade que desponta a verdade, com muita razão podemos pensar que a interlocução entre diversas disciplinas, que discursam e escutam, é, ela mesma, propiciadora da produção de um saber. Assim, na especificidade do pensamento psicanalítico, a interlocução entre os saberes no trabalho em equipe toma seu pleno sentido. Podemos mesmo dizer que o trabalho em equipe só tem sentido se houver interlocução entre os saberes que sustentam seus profissionais.

Discurso e escuta. Sendo assim, vale a pena, hoje, tentarmos o que for possível dessa interlocução. Arrisco-me a apontar algumas direções que poderia tomar a interlocução entre Psicanálise e Musicoterapia, e contribuirão para isso muitas das reflexões que tenho feito com musicoterapeutas e estudantes de musicoterapia, muitos aqui, nesse momento, e aos quais agradeço.

Retorno, aqui, a alguns pontos das definições de Musicoterapia e Psicanálise enunciadas anteriormente: “Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo num processo…” e: “A Psicanálise seria uma experiência entre alguém que fala e um outro que escuta, constituindo um espaço fundado na transferência, no qual a linguagem é sua condição de possibilidade…”

Marie-Claude Lambotte, psicanalista francesa, professora de psicopatologia na Universidade Paris XIII, diz-nos, a respeito da música, que nela se reconhece, desde a Antigüidade, um efeito de resolução dos afetos que deu margem a uma medicina baseada na correspondência entre os estilos musicais e os estilos de sensibilidade; do mesmo modo, mais tardiamente, a partir do século XIV, com a Ars Nova, acentuou-se ainda mais intensamente a vertente expressiva da música, a ponto de o papa João XXII haver condenado essa nova “maneira” na bula de 1322. Isso equivale a dizer que a música, ao longo de toda a sua história e mesmo em suas formas mais contemporâneas, não cessaria de acossar os espíritos, sempre inclinados, sob sua influência mágica, a escapulir do âmbito do domínio racional. De fato, segundo a autora, “(…) o efeito de surpresa, o efeito disruptivo da música, mesmo no seio do mais persistente formalismo, preserva o aleatório, a despeito das limitações da composição. O que equivale a dizer que essa aleatoriedade da música, que provoca enlevo ou resistência no compositor e no ouvinte, e em cujo efeito sem dúvida transparece, ainda e sempre, o poder catártico da música , leva o psicanalista a se interrogar sobre o que, paradoxalmente, escapa à composição musical, ou seja, aquilo que ultrapassa a intenção do compositor, dando conta de uma dinâmica psíquica que não mais pode reduzir-se à expressão da representação”.

O notório compositor Wagner, por sua vez, diz-nos que “o que a língua musical pode exprimir é feito unicamente de sentimentos e impressões: ela exprime sobretudo, numa plenitude absoluta, o conteúdo sentimental da língua puramente humana, desligada de nossa língua verbal, que se tornou simples órgão do entendimento. Por conseguinte, o que permanece inexprimível para a língua musical absoluta é a descrição exata do objeto do sentimento e da impressão [objeto] que estes atingem com maior nitidez: a extensão da expressão da língua musical necessária ao sujeito reside, pois, na ampliação da faculdade de caracterizar, com impressionante acuidade, até mesmo o individual, o particular; e esta, ela somente adquire através de sua aliança com o verbo” (grifo meu). Wagner não poderia ter reunido melhor, numa mesma exigência, os componentes sensíveis da música e as limitações do sentido que ela deve acompanhar ou, até, imitar.

A música ultrapassaria, pois, o campo da significação, para o compositor e para o ouvinte. É isso que aproxima a música do material psicanalítico. Quantas vezes o paciente insiste no “tom” que acompanha as palavras ouvidas, e que ele reconhece fazer parte, intrinsecamente de sua voz ? O registro da voz, da mesma forma que a singularidade do olhar, resultaria, assim, do processo de identificação primordial que possibilita a ida do sujeito ao campo do Outro, ou, em outras palavras, que permite ao sujeito constituir-se em relação ao Outro, com base em marcas essenciais cuja providência ele só vislumbrará muito depois.

Na música, assim como na voz, estamos no campo do Outro.

Lembremo-nos, novamente, de nossas definições de Musicoterapia e Psicanálise, e veremos inaugurar-se uma certa confluência dos objetos das duas disciplinas: “Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia)…”; “A Psicanálise seria uma experiência entre alguém que fala e um outro que escuta…” Na fala, eis a voz, o som.

De fato, Didier Anzieu atribui à voz um papel na constituição do “si” que ele define, antes mesmo da constituição do eu, como um “conjunto psíquico pré-individual, dotado de um esboço de unidade e identidade”. A voz torna-se então um “envoltório sonoro do eu” e entra na estruturação posterior do eu, da mesma forma, diríamos, que a imagem especular. Por outro lado, Lacan considera a voz como um dos cinco “objetos cedíveis” (o seio, as fezes, o pênis, o olhar e a voz) que mantêm com o corpo uma relação de separação e, em virtude disso, participam do processo de desenvolvimento do eu. “Essa função de objeto cedível”, escreve ele no seminário sobre a angústia, “como pedaço separável e que veicula, como que primitivamente, alguma coisa da identidade do corpo que antecede o próprio corpo quanto à constituição do sujeito…”

A psicanálise interessa-se pela voz, portanto, através de dois pontos de vista, que concernem ao mesmo tempo ao universo sonoro primitivo, marcado pela voz materna, e à ruptura simbólica, marcada pela voz do Pai, cujo choque com o banho sonoro original estaria na base da autoridade do supereu. Assim, em “Para uma Introdução ao Narcisismo”(1914), Freud adianta a natureza sonora do supereu: “O que incita o sujeito a formar o ideal do eu, cuja guarda fica entregue à consciência moral, é justamente a influência crítica dos pais, tal como transmitida pela voz deles” ; e ele retomaria a mesma formulação em “O eu e o isso” (1923) esclarecendo que o supereu, composto das representações de palavra pré-conscientes, extrai sua energia de investimento, no entanto, de um “escutado” mais profundo, cuja origem situa-se no isso . Na voz encontramos as duas polaridades em virtude das quais a música transcende o domínio da expressão: a do aquém primitivo, que favorece o reencontro com um modo de prazer fusional há muito abandonado, e a do além formal, que permite fixar o prazer sublimado na elaboração de imagens cada vez mais conceituais.

Se a música participa do prazer, ela decorre necessariamente, do sentimento nostálgico fundamental em que fica embebido o desejo, que nunca chega a se resolver totalmente no investimento do objeto; igualmente, aquém do prazer, ela também aponta para os vestígios de um gozo para sempre desaparecido, o gozo de um tempo anterior ao advento do significante, e que se manifesta na própria insatisfação que renova o desejo. Talvez, assim, possamos imaginar a música como aquilo que, do som ligado à palavra do “traço mnêmico sensorial” (Freud) teria escapado à dominação do “simbólico” (Lacan), ou, dito de outra maneira, como aquilo no som que permaneceria irredutível ao significante.

Na interlocução entre Psicanálise e Musicoterapia, sem dúvida, muito ainda se pode dizer e escutar. O psicanalista francês Alain Didier-Weill, por exemplo, não poderia deixar de ser citado, quando nos fala sobre a “nota azul” de Chopin e dos quatro tempos lógicos da relação musical.

Se ainda há, certamente, entre Psicanálise e Musicoterapia, muito a dizer e a escutar, que isso continue nos conduzindo a uma interlocução.

Rio de Janeiro, 16 de setembro de 2000

Lucy Averbach

e-mail: lucyaverbach@openlink.com.br

Psicanalista, professora da Faculdade de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música do Estado do Rio de Janeiro de 1979 a 2000, atualmente ministra o curso Transferência e Musicoterapia, pela Associação de Musicoterapia do Estado do Rio de Janeiro.

http://www.ubam.hpg.ig.com.br/html/docs/averbach_ecos.htm

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