Disturbios do desenvolvimento motor

Publicado em 16 de abril de 2015

Disturbios do desenvolvimento motor

Ao pressionar a parede uterina com seus membros ou partes de seu corpo, a criança desenvolve física, mental, emocional e social. Ela desenvolve a percepção do corpo e uma sensação de si mesmo baseado nas sensações visuais, táteis e proprioceptivas.
Ao nascer, o bebê interage com seu ambiente inicialmente pelo choro, exprimindo suas necessidades, preferências e aversões. Depois, com movimentos mais instintivos como o afastar da cabeça, o cuspir, o procurar o bico do peito, a criança inicia movimentos que se deslocam contra força gravitacional, levando a adquirir controle de cabeça e seqüencialmente tronco, pelve e membros até a postura bípede, inerente ao ser humano; atravessando os estágios de rolar, arrastar, sentar, ficar de quatro, engatinhar, ficar de pé e andar. Dentro desse deslocamento, a criança percebe os objetos em sua volta e inicia o desenvolvimento de sua preensão (coordenação óculo-manual) ao tocá-los, no que levará a maturação do intelecto. Nesta relação a criança sofre a interação com o seu meio social (mãe, pai, avós, tios…), dando-lhe condições de edificar seu conhecimento de si e do outro.

Disturbios do desenvolvimento motor

Disturbios do desenvolvimento motor

 

 

 

 

 

 

O desenvolvimento de um bebê normal em sua totalidade (físico, mental, emocional e social) depende de sua capacidade de se movimentar. Um bebê privado da mobilidade, ou que tenha dificuldade em se movimentar e explorar seu corpo, ou que só se mova desordenadamente, terá dificuldade em desenvolver sua percepção corporal.

O desenvolvimento da criança faz-se por impulsões locais, de maneira não unitária mas segmentar e diversificada. Portanto, é necessário levar em conta as relações mantidas entre os diversos elementos do desenvolvimento; uma aquisição rápida pode ser compensada por um atraso, progressos muito nítidos (do andar) podem ser acompanhados de uma lente evolução (de higiene pessoal). Enfim, a evolução da criança não se realiza de um modo regular e progressivo, mas um pouco como a evolução histórica de toda a humanidade, por “saltos qualitativos” que se seguem a períodos de lenta maturação e são sucedidos por rupturas, por “revoluções”.
O atraso global do desenvolvimento psicomotor (ADPM) é definido como um atraso significativo em vários domínios do desenvolvimento como sejam a motricidade fina e/ou grosseira, a linguagem, a cognição, as competências sociais e pessoais e as atividades da vida diária. Qualquer destes domínios pode estar mais ou menos comprometido e assim o ADPM é uma entidade heterogênea, não apenas na sua etiologia, mas também no seu perfil fenotípico. A prevalência é em grande medida desconhecida, mas estimada em 1 a 3% das crianças abaixo dos cinco anos.
SINAIS DE ALARME DE ATRASO DE DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR
Área e Idade Sinal de alarme
MOTRICIDADE GROSSEIRA
4 1/2 meses Não puxa para se sentar, com a cabeça alinhada com o corpo
5 meses Não rebola
9 meses Não fica sentado sem apoio
10 meses Não fica de pé com apoio
15 meses Não anda sem apoio
2 anos Não sobe ou desce escadas
2 1/2 anos Não salta
3 anos Não pedala no triciclo
4 1/2 anos Não salta «ao pé-coxinho»
5 anos Não é capaz de andar pé-ante-pé numa linha recta
MOTRICIDADE FINA
3 1/2 meses Persistência do reflexo de preensão
4-5 meses Não segura a roca; não junta as mãos na linha média
8 meses Não transfere os objectos de uma mão para a outra
10-11 meses Ausência de pinça dedos-polegar
15 meses Não põe ou tira de uma caixa
20 meses Não tira meias ou luvas sem ajuda
2 anos Não faz torre de 5 cubos ou não rabisca
2 1/2 anos Não volta a página de um livro
3 anos Não faz torre de 8 cubos ou não esboça uma linha recta
4 anos Não faz torre de 10 cubos ou não copia um círculo
4 1/2 anos Não copia uma cruz
5 anos Não constrói uma escada com cubos ou não imita um quadrado
LINGUAGEM
5-6 meses Não palra
8-9 meses Não diz «da» ou «ba»
10-11 meses Não diz «dada» ou «baba»
16 meses Não produz palavras únicas
2 anos Não faz frases de 2 palavras
2 1/2 anos Não usa pelo menos um pronome pessoal
3 1/2 anos Não fala de modo inteligível
4 anos Não compreende preposições
5 anos Não utiliza a sintaxe correcta em frases curtas
COGNIÇÃO
2-3 meses Não faz sentir necessidades
6-7 meses Não procura o objecto caído
8-9 meses Não se interessa por fazer «cu-cu»
12 meses Não procura o objecto escondido
12-15 meses Não aponta
15-18 meses Não se interessa por jogos de causa e efeito
2 anos Não categoriza semelhanças (por ex. animais, veículos)
3/5 anos Não sabe nome próprio e apelido
4 anos Não sabe escolher entre a maior e a menor de 2 linhas
4 1/2 anos Não sabe contar
5 anos Não sabe as cores nem qualquer letra
5 1/2 anos Não sabe o seu próprio aniversário ou a morada
PSICOSSOCIAL
3 meses Não tem sorriso social
6-8 meses Não ri numa situação apropriada
10 meses Não estranha
1 ano Não se consola, não aceita «mimos»
2 anos Agride sem provocação; sem contacto ocular nem interacção com crianças e adulto
3-5 anos Não brinca com as outras crianças; desafia a obediência

As causas possíveis de atraso global do desenvolvimento psicomotor são variadas. Apesar do desenvolvimento técnico-científico, existe ainda um importante número de casos em que o diagnóstico etiológico fica por determinar. O primeiro passo, fundamental, do diagnóstico etiológico, é a distinção entre uma lesão estática e uma encefalopatia progressiva. Na prática clínica esta questão põe-se desta forma: trata–se de um atraso na aquisição dos marcos normais do desenvolvimento ou, pelo contrário, verificou-se uma regressão, com perda de aquisições? Em alguns casos, numa determinada fase de uma doença progressiva pode haver algumas aquisições cognitivas, mas se estas aquisições se mantêm ao longo do tempo, por muito lentas que sejam, mais frequentemente se trata de uma lesão estática pré- ou pós-natal. Pelo contrário, a perda de capacidades previamente alcançadas é sempre indicadora de uma perturbação evolutiva.
A anamnese e o exame objectivo pode pôr-nos imediatamente na pista de uma etiologia específica. A existência, por exemplo, de antecedentes familiares de atraso do desenvolvimento ou de consanguinidade dos pais, pode indicar uma etiologia genética. A coexistência de paralisia cerebral ou outras alterações do exame neurológico, pode indicar a ocorrência de uma lesão pré ou perinatal. Manchas acrómicas ou hipermelânicas podem ser o indício de uma síndrome neurocutânea como a esclerose tuberosa ou a neurofibromatose tipo 1, respectivamente.

CAUSAS POSSÍVEIS DE ATRASO GLOBAL
DO DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR
Categorias diagnósticas %
Anomalias cromossómicas 11,6
X-frágil 3,3
Síndromes de anomalias múltiplas conhecidos 15,8
Síndromes neurocutâneos 2,5
Doenças neurometabólicas 2,5
Tóxicos/teratogénicos 0,8
Encefalopatia hipoxico-isquémica 2,5
Infecções 0,8
Síndromes epilépticos 8,3
Malformações cerebrais 3,2
Síndromes de anomalias múltiplas
indeterminados 29,1
Etiologia desconhecida 19,1

A fisioterapia estará atuando na reeducação psicomotora, condicionando o indivíduo a um comportamento adaptado à sua personalidade e seu meio. Esse condicionamento elabora-se a partir de exercícos apropriados de ritmos, deslocamentos e realizações motoras acuradas com base num reconhecimento do corpo.
O importante é a progressão do indivíduo através da sucessiva compreensão dificuldades crescentes, adaptadas à sua problemática, e resolução das mesmas.
A apresentação do exercício, seu aspecto lúdico, a presença encorajadora e gratificante do terapeuta permitirão estimular a criança. A alternação de exercícios de força e descontração, de grandes movimentos (deslocamentos ritmados no espaço) e de realizações finas (escrita, recortes) manterá desperta a vigilância da criança.

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